sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pedra da Divisa e Vale Encantado do Quiriri

O Quiriri, ah! O Quiriri...
Após várias trilhas pela nossa serra do mar, eu estava com saudades do Quiriri. Já estava cansado de trilha fechada, sobe e desce por escadinha, corrente, bambu enroscando... queria os campos livres e desimpedidos, a ausência de sombra, caminhar por lugares sem trilha.  Minha última aventura por lá foi em 2014, no Marco da Divisa, com tempo fechado durante todo o final de semana. Acampamos na nuvem e em momento algum o tempo abriu.
O mês de julho foi de intensas chuvas no Paraná e Santa Catarina, e somente no início de agosto o tempo firmou por uma semana, e melhor, durante o final de semana. Como uma parte da galera da AMC ia fazer uma remada no Rio Iguaçu (e por isso não daria pra fazer o 5 Cumes) aproveitamos para nos pirulitar pro Quiriri.
O caminho seria o mesmo que o Getúlio, Matias e Thomas fizeram ano passado, a Pedra da Divisa saindo do Alto Quiriri, próximo à fazenda da Ciser. Para a empreitada aceitaram o convite Márcio e Cláudia, Matias, Serginho, André e Alex , além é claro da minha pessoa.
Depois de um pequeno atraso para deixar o carro do Alex no estacionamento da Rodoferroviária partimos em dois jipes para o alto Quiriri. Como a estrada estava seca, vários carros normais estavam lá em cima, mas a estradinha está bem ruinzinha e a subida é puxada, se chover só 4x4...




Chegamos até o local do início da caminhada, uma mangueira (cercado para confinamento de gado) um pouco antes da mina de talco. Deixamos as viaturas numa casa uns 50 metros estrada abaixo, mas tanto na ida como na volta não vimos ninguém, tudo fechado. A trilha começa pela estrada da propriedade ao lado da mangueira, sentido leste, e o tempo bom anima o pessoal. Vistas desimpedidas para os quatro cantos, os campos do Quiriri a perder de vista...
Depois de aproximadamente 45 minutos de caminhada chegamos noutra mangueira, esta na encosta do Monte Quiriri, montanha de maior altitude de toda serra com 1538 m. Resolvemos contornar o mesmo pelo leste, e deixar a sua subida para a volta. Continuamos pela estradinha até um local de alimentação do gado, com algumas manilhas de cimento usadas como cochos. Mudamos o rumo para nordeste e prosseguimos nossa caminhada debaixo de muito sol.




Próximo às 11:00 hs paramos para um rápido lanche e decidimos tocar pelo vale ao lado da Pedra da Divisa, o famoso Vale Encantado. Aqui deixo um parêntese: sempre surge a dúvida de qual é o Vale Encantado que sempre ouvimos falar. Eu afirmo que é este que pegamos, o mesmo que Jorge Soto seguiu alguns anos atrás e descreveu em seu relato neste mesmo fórum. Já outras pessoas falam que é o vale logo ao lado da Pedra da Tartaruga. Na verdade todos os vales de lá são encantados, de beleza ímpar. São pelo menos 4 vales paralelos que percorrem o Quiriri sentido oeste-leste, mas este que percorremos (o número 4, sentido sul-norte) tem a maior cachoeira de todos e fica bem ao lado da Pedra da Divisa.
Depois de banho de cachoeira, almoço numa pequena sombra a beira do rio e muitos cliques, começamos a subir para o local de nosso acampamento, numa pequena elevação ao lado de um afluente do rio do vale encantado, aos pés da Pedra da Divisa. O local é estratégico, o cume da Pedra da Divisa está a 2km do acampamento, e o Monte Quiriri a aproximadamente 7 km, seguindo praticamente em uma linha reta.




Armamos as barracas e vamos subir um morrote ao lado para ver o por do sol, que foi prejudicado por nuvens insistentes que surgiram ao final de tarde. O ponto triste da caminhada ocorre no final de tarde. Do alto do morro escutamos barulho de motocicletas, e logo depois avistamos dois motoqueiros andando pelas encostas do Padre Raulino e vale encantado 3. Logo após vimos um foco de fogo, e depois mais um... os motoqueiros estavam colocando fogo no Quiriri!!! Contei 6 focos de incêndio iniciados por eles na encosta do Pe. Raulino e nos vales 3 e 4. Ficamos apreensivos com nosso lugar de acampamento, mas o vento levou o fogo pro outro lado. No dia seguinte ele seguia queimando, indo em direção da Pedra da Tartaruga, tendo queimado todo Pe. Raulino e suas encostas.
À noite tiramos algumas fotos, jantamos, batemos papo e logo fomos dormir, para acordar no dia seguinte cedo e apreciar o nascer do sol...
Depois do café da manhã seguimos para a Pedra da Divisa, que é uma das mais altas montanhas da região, e também uma das maiores, pois sua “proa” está bem distante do cume, aproximadamente 500 m.








Muitos cliques e voltamos para o acampamento para desarmar as barracas e iniciar a volta. Saímos sentido sul, em direção do Morro do Quiriri, passando por vales e montes, a paisagem característica do Quiriri. Perto da hora do almoço paramos num rio para nosso lanche, e em seguida partimos para a subida do Quiriri. O Monte Quiriri também é uma montanha “esparramada”, com vários cumes. A visão de lá de cima é linda, de 360° e podemos ver todos os vales e morros ao redor.
Subimos o Quiriri pela encosta norte e vamos descer a encosta sul, saindo exatamente na segunda mangueira. Estamos perto do final, agora é só seguir a estrada por 45 minutos até o carro.
Na volta encontramos bastante gente passeando no alto Quiriri; alguns retornando da fazenda da Ciser, outros apenas curtindo a estradinha ruim em motos, jipes e carros “normais”. O Quiriri está ficando popular...







Seguimos até a BR 376 para encarar um congestionamento básico de final de semana com tempo bom na principal ligação entre Curitiba e o litoral catarinense.
E foi assim, mais um final de semana abençoado por Deus, aonde pudemos desfrutar de toda a beleza da Sua criação. Pena que alguns ainda não entendem isso e achem que o Quiriri é apenas pasto para gado, e continuem fazendo queimadas.


Otávio
Matias, Márcio, Cláudia, Otávio, Alex, Serginho e André

terça-feira, 7 de julho de 2015

Pico Paraná de ataque

Após passar um feriadão de 4 dias de tempo bom, sem uma nuvem, temperatura amena, em casa uivando para as montanhas resolvi fazer uma caminhada mais hard, pra lavar (e cansar) a alma.
Escolhi ir ao Pico Paraná, ponto culminante do sul do Brasil e considerada uma caminhada pesada. Apesar da pequena distância (+/- 9km) a trilha percorre um sobe e desce bem intenso na serra do Ibitiraquire, o que a torna bem cansativa. A ideia era ir até o PP, e se desse tempo e as pernas aguentassem, esticar até o Ibitirati, montanha nunca alcançada por mim. Também seria meu retorno ao PP, quinze anos depois da minha última ascensão, em janeiro de 2000.
Como a caminha é pesada, cansativa, e eu queria ir rápido (pra tentar o Ibirirati) convidei apenas gente que desse conta do recado. A maioria já tinha compromissos, e acabou sobrando eu, Natália e Matias.
Saímos cedo num domingo que prometia tempo bom, estava frio e sem chances de chuva. Chegamos na fazenda do Dílson , fizemos o cadastro e começamos a caminhada 7:20hs. Segundo o Dílson, de ataque levaríamos +/- 5 horas pra subir e 4 horas pra descer. Pensei comigo, precisamos ser mais rápido se quisermos ir ao Ibitirati.
A trilha está bem fácil de ser seguida e bem barrenta, uma valeta. Não tem como errar, só seguir o trilho mais profundo. Subimos o Getúlio, também conhecido como morro da desistência, por ser logo no início e bem íngreme, o pessoal que não está preparado física e psicologicamente para por ali.
Logo chegamos numa das partes mais bonitas da trilha, a caminhada pelos campos de altitude entre o Getúlio e o Amarilis, aonde se descortina toda serra: bem na nossa frente o Caratuva com o Itapiroca logo a sua direita, a direita deste, pro sul, Tucum, Camapuã e Camacuã. Ao norte, a esquerda do Caratuva, Taipabuçu, Ferraria, Ferreiro e Guaricana.
Ao fundo a Serra do Capivari

Caratuva e Itapiroca

A caminhada continua em direção ao Caratuva, vamos passar pelo selado entre ele e o Itapiroca. Na bica cimentada pegamos água e comemos alguma coisa. Continuamos a caminhada pelas raízes da encosta do Caratuva, parte bem cansativa da trilha.
Logo passamos pela sela (ligação entre duas montanhas), aonde se inicia a subida pro Itapiroca, à direita. Continuamos na trilha principal, para nosso destino que se encontra ainda distante, umas duas horas de caminhada, talvez mais.
Bosque das Fadas

Primeira janela pro PP

Quando saímos da floresta temos a primeira visão do gigante! Montanha linda, uma das mais belas que conheço. O PP está bem a nossa frente, com o União e Ibitirati colado nele. Para o sul temos o Cerro Verde, Luar, Siri, Ciririca, com a baía de Antonina ao fundo.
Ibitirati, União e PP



Conjunto Ibeteruçu: Ibitirati, União, PP e Camelos. O Tupipiá está escondido atrás do PP 

Ciririca

O tempo está ótimo, céu azul, nem quente nem frio, apenas algumas nuvens começam a surgir. Continuamos até o A1 (área de camping situada bem em frente ao PP), aonde paramos para alguns cliques e logo seguimos para a parte dos grampos. Este trecho é uma descida acentuada, por uma crista muito bonita, mas que me faz lembrar que na volta será uma subida bem chatinha...
Chegamos nos grampos bem na hora que uma turma está descendo. Subimos rapidamente para não precisar esperar eles descerem. Mais pra cima encontramos o Papael descendo com a Ana Wanke, vida de guia de montanha não é fácil...
Continuamos a subida, passamos pelo A2 (área de camping mais próxima do cume, e última antes dele) sem pegar água, pois tínhamos coletado no rio perto do A1. Bem nessa hora começa a se aproximar uma nuvem. Continuamos a subida, passamos pelo falso cume, que enganou a Natália direitinho (e engana todo mundo pela primeira vez). A caminhada neste trecho exige certa atenção, pois a trilha já não é tão evidente assim, pois caminhamos por cima das pedras. Existem algumas marcações, mas com nevoeiro, uma pessoa que nunca foi pra lá pode ter alguma dificuldade. Aliás é neste trecho que aconteceu a maioria das mortes no PP, as pessoas se perdem no nevoeiro, à noite, e acabam seguindo trilhas falsas que terminam nos desfiladeiros, pois caminhamos pela crista da montanha.


Falso cume, PP e Tupipiá



Cume!!!

União e Ibitirati, vistos do PP

Baía de Antonina

Quando finalmente chegamos no cume à nuvem chegou junto... 12:20 hs fincamos o pé no cume, exatas 5:00 hs de caminhada. A falta de visual, o cansaço e o horário adiantado nos faz desistir do Ibitirati. Vou ter que bolar um jeito de conquistar essa montanha...
Almoçamos, descansamos, tomamos um suco, tiramos fotos, e quando olhamos no relógio já se passaram uma hora, temos que voltar.
Iniciamos a descida, e claro, assim que deixamos o cume a nuvem também... A descida é tranquila, até chegarmos aos grampos. Logo após a descida encontramos uma menina que resolveu aguardar seus colegas que estavam subindo, pois não teve coragem de subir os grampos. Ela nos pediu para descer conosco, e descobrimos que era amiga do Matias, frequentadora da PIB Curitiba, nossa igreja. Selma se junta a nós, o que acabou atrasando nossa descida.
Descendo...

...pela crista

Taipabuçu e Ferraria

Aqui cabe um parêntese: segundo a Selma, seus amigos se prontificaram a voltar com ela, ou mais alguém aguardar o resto do pessoal voltar, não deixando ela sozinha. Segundo ela, foi por insistência dela que todos subiram. Ela também não conhecia a trilha, e tinha pouca experiência em montanha, tendo subido apenas Anhangava e Canal, montanhas bem menores e menos exigentes que o PP. NUNCA devemos deixar alguém sozinho na montanha, por mais que possa parecer tranquilo, esta é uma regra primordial de segurança.
Nossa descida foi em 6 horas, chegamos 19:20 hs na fazenda. Selma foi de arrasto, sofreu bastante e com certeza aprendeu que deve-se conhecer aquilo que se pretende fazer. O PP não é uma trilha impossível, que só profissionais ou montanhistas ultra-mega-blasters podem fazer, mas precisa de muita resistência física e psicológica. Apesar de ter levado lanterna Selma ficou com muito medo de fazer a parte final da trilha no escuro, seu cansaço a fazia praticamente sentar para descer um simples degrau, precisando de ajuda o tempo todo. Seus colegas chegaram na fazenda 22:00hs...
E foi assim mais um domingo de montanha, natureza e contato direto com o Criador. Que nos proporcionou visuais fantásticos, o prazer da companhia dos amigos, poder ajudar os que precisam, e pernas doídas por três dias.

Próxima!!!

terça-feira, 9 de junho de 2015

Janela do Conceição - o filme

Filme do amigo Vinicius, beeeeem melhor que os meus...


Janela da Conceição - maio 2015

Durante a semana recebo o convite para uma empreitada inédita para mim, ir a Janela da Conceição, túnel escavado na década de 50 para a construção da Usina Hidrelétrica Parigot de Souza, em Antonina, litoral paranaense.
O local é cheio de história e bem conhecido dos aventureiros paranaenses. Um túnel de 1300 metros escavado nas encostas da serra do Ibitiraquire, conhecida pelo ponto culminante do sul do Brasil, o Pico Paraná, e outras montanhas igualmente majestosas.
Num domingo cinzento embarcamos eu, Natália, Zeca, Wilson, Hadassa, João, Maicon e Vinicius, rumo ao Bairro Alto, localidade de Antonina aonde se inicia a trilha. Na verdade a trilha é uma antiga estrada de serviço construída pela Companhia Elétrica Paranaense durante a construção da usina Parigot de Souza. Com o desuso virou uma trilha relativamente fácil de ser percorrida, pelo seu baixo aclive.
No caminho temos a primeira visão da face leste da serra do Ibiritaquire, onde estão PP, União, Ibiritati, Camelo , Tupipiá, Cerro Verde, Luar, Ciri, Ciririca e Agudos. A manhã está limpa e o sol da manhã cria uma iluminação perfeita para as fotos.



Numa das paradas para os cliques avistamos um animal diferente, e quando passamos por ele notamos que é um animal selvagem que caminha pela estrada. Paramos e vamos lentamente em direção a ele tirando várias fotos: era um Cachorro do Mato filhote, que com a aproximação foge para a mata.



Chegamos ao Bairro Alto, e o calçamento acaba numa pequena praça, dali seguimos até a fazenda aonde se inicia a trilha. Deixamos o carro baixo e o João leva uma parte do pessoal com seu jipe de luxo até a ponte partida. Eu, Zeca e Vinicius seguimos pela estrada precária (só carro tracionado sobe) a pé até o João desembarcar o pessoal lá no alto e voltar para nos buscar mais ou menos na metade do caminho. Isso nos economizou uma meia hora de pernada.


Grupo reunido novamente iniciamos a caminhada atravessando a ponte que está em ruínas, mas que ainda recebe algum tipo de manutenção pelo pessoal da Copel que utiliza a trilha para fazer a manutenção das torres de alta tensão.
A caminhada é tranquila, apesar do barro e água. Aliás, muito barro. É neste barro que vimos duas pegadas do que achamos ser de onça, os especialistas que nos ajudem. Isso mostra que o local é bem preservado, haja vista que uma bichana foi fotografada na RPPN Salto do Morato, em Guaraqueçaba, município vizinho de Antonina e pro mesmo lado que estamos.


O tempo fecha, a trilha também, em certos momentos é necessário o uso do GPS para achar o rumo. Chegamos até a cachoeira dos Cabos, e ao passar por baixo de um cabo de aço a trilha some de vez. Seguimos umas marcas vermelhas nas árvores, mas ela nos leva pra longe do caminho correto, nos diz o GPS. Achamos que estas marcas devam ser do pessoal da Copel para achar as torres.

Voltamos e pegamos o rumo certo, agora sem trilha, no facão e GPS. Mas a estrada ainda é visível no meio da floresta. Vamos seguindo os vestígios até chegarmos à ponte de treliça, escondida dentro do mato, estamos perto. Daqui pra frente vamos seguindo as indicações do GPS, e as construções feitas pela obra da Copel até acharmos a janela, que de janela não tem nada.




Um portão de ferro guarda o túnel escava na rocha. Ligamos as lanternas, e começamos a caminhada dos 1300 metros até o final da “janela”. Morcegos ficam incomodados com nossa presença e ficam nos rodeando, mas apenas no começo do túnel. Depois de uma pequena caminhada com direito a um “lava pés” bem gelado chegamos ao final do túnel.
Atrás da escotilha fica o túnel que leva a água da represa do Capivari, ao lado da BR 116 no primeiro planalto paranaense até a usina no litoral, em Antonina, totalmente escavado por baixo da serra do Ibitiraquire, uma obra de engenharia espetacular.




Muitos cliques depois começamos a volta, que é feita pelo mesmo caminho. Chegamos na fazenda perto das 17:00 hs, colocamos uma roupa limpa, beliscamos alguma coisa e quando começa a escurecer iniciamos o caminho de volta para casa. Não sem antes comer um pastel gordurento em São João da Graciosa.

E mais uma carimbada no caderninho, Janela da conceição!!!